Entrevista com o Sr. Wolfowitz após a reunião com o Presidente Lula

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Entrevista com o Sr. Wolfowitz após a reunião com o Presidente Lula
Brasília, 15 de dezembro de 2005


PERGUNTA: Sr. Wolfowitz, gostaria de saber qual é a sua opinião sobre os escândalos de corrupção no Brasil.

WOLFOWITZ: Permita-me fazer inicialmente alguns comentários. Antes de tudo, eu tinha muita vontade de fazer esta visita,. Ouvi falar muito sobre este país ao longo dos anos e particularmente nos últimos meses em que ocupo este cargo. O Brasil é um país muito importante para o trabalho do Banco Mundial e estou muito animado de estar aqui.

Tive uma recepção muito calorosa no primeiro dia da minha chegada e isso corrobora totalmente o que ouvi falar sobre a hospitalidade e a simpatia brasileira. Tive uma boa reunião com o Ministro da Fazenda, Palocci, e acabo de me encontrar com o Presidente Lula, e posso afirmar que o Presidente é um forte líder que obviamente tem uma profunda preocupação com este país, além de ser um líder global. Encontrei com ele pela primeira vez, de fato, em Gleneagles, na Escócia, na reunião de cúpula do G8, e creio que o Brasil tem um papel de liderança a cumprir, em particular na questão comercial e do meio ambiente.

Houve três temas principais que foram discutidos e que eu penso são centrais para a relação do Banco Mundial com o Brasil. Um deles é o comércio, que eu já mencionei. Existem questões importantes que emergem das reuniões de Hong Kong, que estão correndo agora, e será preciso fazer um grande trabalho depois de Hong Kong. A pergunta sobre a maneira de gerenciar os extraordinários recursos naturais deste país e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento, porque eles não podem ser inimigos um do outro. Um bom desenvolvimento e uma boa gestão ambiental devem estar unidos e eu acho que essa é uma área muito importante na qual o Banco Mundial está trabalhando com o Brasil.

E finalmente, mas não menos importante, o mais relevante na verdade é o que todos nós podemos fazer juntos para ajudar as pessoas mais pobres deste país, porque um dos grandes desafios do Brasil e, de fato, de toda a América Latina, é que, apesar dos indicadores econômicos muito bons e de uma renda suficientemente alta – por isso chamamos o Brasil de um país de renda média – ainda existem milhões de pessoas que vivem na extrema pobreza e este é um fato que testemunhei esta manhã em São Paulo, e também estaremos falando disso.

Sobre a pergunta que você me fez, não estou aqui para me envolver nas questões do momento e esse é um tema corrente muito importante no Brasil, mas na verdade falamos com o Presidente sobre esse problema mais abrangente, que é um problema de todos os países, inclusive das nações mais desenvolvidas. Os Estados Unidos têm problemas de corrupção e isso é especialmente um problema nos países mais pobres do mundo, porque eles não dispõem de instituições para lidar com essas dificuldades, e essa é uma das razões pelas quais temo que eles continuem pobres.

Por isso, o desafio agora é desenvolver instituições que limitem a corrupção, impeçam a corrupção, reduzam seus efeitos e eu diria que duas das mais importantes instituições, digamos três, três das mais importantes instituições são um bom sistema judiciário e, nesse sentido, o Brasil é claramente mais avançado do que muitos países, mas ainda há mais trabalho a fazer. Um bom sistema de transparência democrática e, a esse respeito, obviamente o Brasil está muito à frente em relação à maioria dos países do mundo…algumas ditaduras no mundo escondem seus problemas de corrupção, mas o problema da corrupção é ainda maior e, finalmente, não digo apenas para agradar a todos vocês, mas uma imprensa livre é uma instituição muito importante para expor a corrupção e combatê-la.

PERGUNTA: O Sr. conversou sobre as eleições do ano que vem e quais serão os seus efeitos sobre a economia?

WOLFOWITZ: Você realmente quer que eu me envolva na política brasileira, isso é bom, mas veja: a nossa missão no Banco Mundial é apoiar o desenvolvimento econômico e as iniciativas que ajudarão os pobres. Eu penso nos países democráticos de modo geral e os governos que adotam essa postura fazem eleições, e os governos que não seguem esse caminho são eventualmente rejeitados nas eleições. Eu penso que esta é a razão pela qual, de modo geral, e a propósito, os nossos estudos mostram isso, que os países com melhores instituições democráticas tendem a progredir mais, porém as nações devem escolher os seus próprios líderes, e essa não é uma incumbência para um estrangeiro, inclusive o Banco Mundial.

PERGUNTA: O Sr. falou sobre o novo acordo com o Presidente Lula. Ele disse que gostaria de solicitar um novo programa de financiamento de 800 milhões para transferência de tecnologia e para a reforma do sistema judiciário?

WOLFOWITZ: Não falamos sobre algo tão específico quanto o que você disse. Conversamos sobre assuntos gerais, nos quais isso podia estar incluído, mas não estou certo.

PERGUNTA: O Brasil está pronto para novos investimentos?

WOLFOWITZ: Estamos fazendo investimentos de cerca de dois bilhões de dólares por ano no Brasil e uma das coisas que define o Brasil como um país de renda média é que dois bilhões de dólares correspondem a 10% dos recursos próprios que o Brasil fornece através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Eu tenho realmente que ir embora. Muito obrigado.


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