Washington, D.C., 12 de Outubro de 2008 – Como é que a actual crise financeira pode afectar África e o que é que os países podem fazer para se protegerem foi o enfoque do seminário de ontem entre banqueiros africanos e analistas de investimento internacional, realizado sob os auspícios das Reuniões Anuais do Banco Mundial-FMI. Como parte do seminário, cerca de 50 participantes encheram uma pequena sala na sede do Banco Mundial e envolveram-se num debate animado sobre o futuro financeiro de África. “Os formuladores de políticas africanos precisam de estar cientes que o crescimento global será muito mais lento e que o tipo de fluxos a que se habituaram se vão esgotar,” avisou Stephen Bailey-Smith, chefe de investigação do Standard Bank no Reino Unido. Também aludiu à elevada inflação da região, moedas locais mais fracas, redução das remessas da Diáspora africana, em consequência da crise, como agravantes que podiam tornar a região mais vulnerável. A África Subsariana já viu alguns dos efeitos, como resultado da crise, de acordo com Michael J. Fuchs, economista financeiro chefe na Região África do Banco Mundial. As bolsas das maiores economias africanas – Nigéria, Quénia e especialmente África do Sul – estão a reflectir os efeitos produzidos nos mercados desenvolvidos e diminuíram as emissões de obrigações internacionais, que tinham vindo a aumentar. A reduzida dimensão dos mercados africanos também significa que até mesmo levantamentos limitados poderiam ter um impacto significativo e, embora seja pouco provável uma retirada considerável de capital pelos investidores estrangeiros, com o aprofundar da actual crise, é uma situação que pode causar algum efeito. Segundo Fuchs, factores internos irão também ter um papel responsável pelo maior impacto nos países. Os efeitos podem ser amplificados pela incerteza política, mercados da habitação sobrevalorizados e expansão do crédito explosiva. O reforço dos mercados e instituições africanos com vista a assegurar o crescimento vai ser essencial para proteger os países no ambiente corrente. Dr. David Kihangire, director-executivo de investigação no Banco do Uganda em Kampala, insistiu na necessidade de menos pânico baseado em notícias da crise e mais regulação dos mercados financeiros africanos. “Daqui para a frente, devíamos considerar soluções de médio e longo prazo”, afirmou. “Devíamos tirar a política monetária do cesto dos papéis e pô-la de novo na mesa”. Esta opinião foi partilhada por J. Sanpha Koroma, CEO e director executivo do Union Trust Bank Limited em Sierra Leone, que considerou que o desafio, para ele e para outros banqueiros em África, é convencer os investidores que os mercados são estáveis. Koroma apelou a um regresso às actividades bancárias simples e menos enfoque em derivados complexos. “Voltemos à actividade bancária convencional”, sugeriu. “O Standard Bank está a fazer mais dinheiro em África porque pratica a actividade bancária simples – empréstimos e câmbios.” O Standard Bank, com base no Reino Unido, é um dos maiores bancos de África, com dependências em 18 países do continente. Os participantes registaram que os mercados africanos apresentam diferentes níveis de desenvolvimento, que domina a dívida no sector público e que existe um maior enfoque nos mercados primários do que nos secundários – deixando muitos investidores sem capacidade para saídas de emergência – e que não existem mercados de obrigações fora da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMAO ). Para se contrariar estes desafios com vista a promover a confiança no investimento exigir-se-á regionalização, melhor infra-estrutura dos mercados – vários países não têm um sistema de mercado – melhor recolha e disseminação de dados financeiros e mais investimento, segundo Jennifer Moyo, uma consultora de estratégia de mercados de capital no Banco Africano de Desenvolvimento. “Para África, é fundamental atrair investidores de longo prazo – sobretudo companhias de seguro e fundos de pensão”, afirmou. O Banco Mundial está a analisar formas de desenvolver uma abordagem compreensiva destinada a reforçar os mercados locais. Através do programa ESMID, um projecto-piloto na África Oriental e Nigéria, o Banco está a prestar assistência técnica em todas as áreas do mercado tais como regulação, infra-estruturas de mercado, criação de capacidade (para a indústria e para o regulador), mercados secundários, etc. De acordo com um Especialista Financeiro Principal da Região África do Banco, Clemente de Valle, o programa enfatiza o apoio a iniciativas regionais viáveis onde exista uma forte vontade política para integrar os mercados financeiros. “Associa assistência técnica para apoiar a criação de um ambiente propício” afirmou de Valle. “Com um forte apoio a transacções específicas, tal poderia ser um incentivo ao desenvolvimento dos mercados.” |