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“Catalisar o Futuro: Uma Globalização Inclusiva e Sustentável”

Para ler a tradução em português brasileiro, favor clicar aqui

Reunião Anual
Conselho de Governadores do
Grupo Banco Mundial

Discurso de
Robert B. Zoellick
Presidente do Grupo Banco Mundial
Washington, D.C.

22 de Outubro de 2007

“Catalisar o Futuro:
Uma Globalização Inclusiva e Sustentável”

Senhor Presidente, Senhores Governadores, Distintos Convidados:

É com grande prazer que lhes dou as Boas-Vindas às nossas Reuniões Anuais.

Gostaria de expressar o meu particular reconhecimento ao nosso Presidente, Karim Djoudi, por estas reuniões e a Augustín Carstens, pela chefia do Comité de Desenvolvimento bem como pelo seu aconselhamento precioso, quando assumi este novo cargo.

Os meus agradecimentos vão também para o meu amigo e colega Rodrigo de Rato pelo seu papel nesta forte parceria entre as nossas duas instituições. Conheço o Rodrigo desde a época em que trabalhámos juntos em questões económicas e comerciais para os nossos respectivos governos e sempre apreciei a sua visão, decência e perspicácia directa. Os meus votos das maiores felicidades na sua vida futura.

Espero continuar esta parceria com Dominique Strauss-Kahn. Conheci-o através do meu grande amigo Pascal Lamy que hoje é o Director Geral da OMC. Parece que é o meu destino emparceirar com Socialistas Franceses extraordinariamente competentes!

Gostaria ainda de agradecer às muitas pessoas que me deram estímulo e apoio. Tenho a sensação que as pessoas do mundo inteiro reconhecem, tanto a necessidade como a potencialidade desta criação única. O Grupo Banco Mundial é uma das grandes instituições multilaterais criadas depois da 2ª Grande Guerra. Sessenta anos depois, tem de se adaptar a circunstâncias extraordinariamente diferentes, numa nova era de globalização. Penso que os seus melhores anos ainda estão para vir.

Os funcionários do Grupo Banco Mundial ajudaram-me a aprender, mostraram-me o nosso trabalho vital no campo e ofereceram-me ideias novas para a definição do curso a seguir. O Conselho oferece-nos a sua orientação experiente na nossa luta para transformar as boas intenções em acções produtivas.

A Face do Grupo Banco Mundial

Por trás de cada projecto que apoiamos, existe a história de uma pessoa que está a tentar construir uma vida melhor.

Durante a minha visita ao Cambodja, em Agosto, conheci Leap Roth, um homem cheio de energia que perdeu uma perna na década de 80. Cinco anos atrás, Leap abriu uma pequena oficina com a mulher, que vendia debulhadores de arroz, camiões e ferramentas agrícolas. Conseguiu dinheiro emprestado do Banco ACLEDA para fazer crescer o seu negócio. ACLEDA foi, em tempos, apenas uma pequena ONG mas, com a ajuda da IFC, a nossa divisão para o sector privado, transformou-se num dos maiores bancos comerciais do Cambodja. Actualmente, com 166 filiais em todo o país, é o único banco no Cambodja que trabalha com os pobres.

No Mali, o Banco Mundial ajudou uma pequena cidade produtora de algodão a construir uma estação geradora de energia solar. A estação proporciona 10 horas de electricidade diária a mais de 150 residentes e, possivelmente, irá abranger alguns mais. Kalifa Goita, o Presidente da Câmara da cidade, conta que a electricidade atraia investidores locais e a aproxime do mundo. Nas suas palavras, “Com o telefone, sabemos o que se passa no mundo. Com a electricidade, vamos ver o que acontece no mundo, através da televisão”.

No Afeganistão, os nossos financiamentos da IDA apoiaram os esforços do Governo destinados à construção de escolas, formação de professores e desenvolvimento de um novo currículo escolar para o ensino secundário. Num discurso proferido no Banco no princípio do mês, o Ministro da Educação do Afeganistão, Haneef Atmar, disse que “Há cinco anos e meio não existia uma única menina nas escolas no Afeganistão; actualmente, há mais de 2 milhões. Há cinco anos e meio não tínhamos mulheres professoras; hoje em dia, temos mais de 40 mil”.

Estas são as faces humanas do Grupo Banco Mundial. Podem estar bem longe das nossas capitais e das nossas salas de conferência mas estão no centro da nossa missão de oferecer dignidade e esperança.

Quando se lhes é dada a oportunidade, as pessoas do mundo inteiro querem construir uma vida melhor para elas e para os seus filhos. Esse impulso, na presença da possibilidade, pode contribuir para uma sociedade global sólida e próspera.

Uma Globalização Inclusiva e Sustentável

A globalização tornou-se o marco que define o nosso tempo. Eliminou barreiras e fronteiras e desencadeou movimentos de ideias, bens, capital e pessoas. Criou oportunidades onde não existiam.

Contudo, a globalização ainda não chegou a todos. Muitos permanecem na periferia e outros estão a ficar ainda mais para trás. A exclusão, a pobreza opressiva e a destruição do meio ambiente criam perigos. Os que mais sofrem são aqueles que, para começar, menos têm: povos indígenas, mulheres nos países em desenvolvimento, população rural pobre, africanos e os seus filhos.

A visão do Grupo Banco Mundial é contribuir para uma globalização inclusiva e sustentável – superar a pobreza, aumentar o crescimento sem descurar o meio ambiente e criar oportunidades e esperança para os indivíduos.

Em 2000, os países membros das Nações Unidas estabeleceram oito Metas de Desenvolvimento do Milénio – objectivos ambiciosos para reduzir a pobreza pela metade, combater a fome e a doença e prestar serviços básicos aos pobres até 2015. Estas metas, as nossas metas, estão afixadas na entrada principal do edifício da nossa sede, para nos recordar da missão que nos propomos alcançar.

Estas metas de desenvolvimento social sólido têm de ser combinadas com os requisitos para um crescimento sustentável, impulsionado pelo sector privado, no âmbito de um enquadramento propício das políticas oficiais.

O Papel do Grupo Banco Mundial

Atender a estas necessidades não é, naturalmente, apenas uma questão de dinheiro. Nem é função do Grupo Banco Mundial responder sozinho a estes problemas.

O propósito do Grupo Banco Mundial é prestar assistência aos países para se ajudarem a si mesmos, catalisando o capital e políticas por meio de uma mescla de ideias e experiências, desenvolvimento de oportunidades do mercado privado e apoio à boa governação e combate à corrupção – impulsionado pelos nossos recursos financeiros.

O propósito do Grupo Banco Mundial é avançar ideias acerca de projectos e acordos internacionais sobre comércio, finanças, saúde, pobreza, educação e mudança climática, para que todos beneficiem, especialmente os pobres.

Devemos expandir as fronteiras do pensamento sobre políticas e mercados, explorando novas possibilidades e não apenas reciclando o que foi sofrivelmente comprovado com uma modesta vantagem financeira.

Primeiros Passos

Estamos a tomar medidas para alavancar as vantagens e sinergias entre as quatro principais entidades que constituem o Grupo Banco Mundial: BIRD, IDA, IFC e MIGA. Para os nossos clientes, temos de trabalhar como um Grupo Banco Mundial.

Primeiro, o nosso Conselho Executivo concordou recentemente em que o Grupo Banco Mundial assuma a liderança contribuindo com US$ 3,5 mil milhões dos seus próprios recursos para a IDA-15. É mais do que o dobro do montante de US$ 1,5 mil milhão que atribuímos à IDA-14. A nossa contribuição para a IDA depende, obviamente, do rendimento anual do BIRD e da IFC, de acordo com a distribuição que os Conselhos fazem anualmente mas acreditamos que seja possível. Instamos todos os outros a também estugarem o passo.

A generosidade dos dadores é fundamental para o sucesso da IDA-15, que representa a nossa ferramenta de financiamento mais importante para os países mais pobres e para a África em particular. Através do apoio dos dadores, fomos incentivados para um resultado ambicioso. A África do Sul associou-se com a promessa de um aumento de 30% na sua contribuição. Agora precisamos que o G-8 e outros países desenvolvidos também transformem em números sérios as palavras contidas nas declarações das cúpulas.

Segundo, estamos comprometidos com uma estratégia de crescimento mais sólido da IFC, a nossa divisão para o sector privado. A IFC tem crescido nos últimos anos. Tem-se centrado mais no impacto no desenvolvimento do seu trabalho. No ano passado, a IFC forneceu USD 3 600 milhões, ou seja 37% dos seus investimentos, aos países da IDA.

Terceiro, intensificaremos a cooperação entre a IDA e a IFC para impulsionar o sector privado nas economias mais pobres. A IFC também está a lançar uma nova infra-estrutura e fundos de microcapital para os países da IDA. A IDA e a IFC fazem co-investimentos destinados a apoiar parcerias público-privadas em projectos de infra-estruturas, especialmente nos sectores da energia, transportes, água, agricultura e microfinanciamento. Estes projectos podem apoiar a integração dos mercados regionais, o que particularmente importante para os Estados menores e sem acesso ao mar em África.

Quarto, anunciámos uma enorme simplificação e redução do preço dos empréstimos do BIRD, a nossa divisão de financiamento público. Os preços dos empréstimos estão agora no nível anterior à crise asiática. Esta medida faz parte do nosso esforço mais amplo destinado a melhorar e expandir os nossos serviços aos clientes.

Os clientes do BIRD têm-nos solicitado ajuda no sentido de poderem atender às suas necessidades diversas. Logo, o BIRD devia estar a crescer e não a contrair-se. A combinação do nosso conhecimento e dos nossos serviços de empréstimos é particularmente importante para ajudar os países no que respeita ao seu desenvolvimento social e à expansão de energia e das infra-estruturas de uma forma ambientalmente saudável. É óbvio que os nossos serviços aos países de médio rendimento têm de continuar a expandir-se muito para além dos empréstimos. Também temos de resolver os outros aspectos não financeiros dos negócios. O nosso objectivo é agir mais rapidamente, melhor e mais barato.

Estes primeiros passos apontam o caminho para um horizonte em expansão.

Uma Globalização Inclusiva e Sustentável: Uma Abordagem Multilateral

Há cerca de mil milhões de pessoas que vivem com apenas 1 USD ao dia. A globalização não pode deixar para trás este “mil milhão de baixo”. A pobreza gera instabilidade, doença e devastação de recursos comuns e do meio ambiente. A pobreza pode conduzir a sociedades enfraquecidas que se podem tornar terreno propício para pessoas inclinadas à destruição e migrações que põem a vida em risco.

A globalização trouxe benefícios desiguais para os milhares de milhões de habitantes nos países de rendimento médio que começaram a subir a escada do desenvolvimento, a partir do fim da Guerra Fria. Em muitos lugares, as tensões sociais estão a enfraquecer a coesão política. Estes países de rendimento médio precisam de continuar a crescer, de oferecer desenvolvimento inclusivo e de adoptar políticas ambientais para uma prosperidade sustentável.

A maior influência dos países em desenvolvimento levanta outra questão: qual será o seu lugar nesse sistema global em evolução? Não se trata apenas de uma questão como os países grandes em desenvolvimento interagirão com os países desenvolvidos, mas também com os Estados mais pobres e mais pequenos do mundo. Seria realmente uma ironia se o Grupo Banco Mundial deixasse de trabalhar com os países de rendimento médio num momento em que os governos estão a reconhecer a necessidade de integrar estes países de forma mais eficaz na diplomacia e nas instituições de segurança política. Por que não integrá-los também como parceiros nas instituições de economia multilateral?

Há dois anos eu sugeri que a China aproveitasse o seu sucesso tornando-se “interessada responsável” no sistema internacional. Naturalmente, isto também representa um desafio para outros, se pretendermos alcançar uma globalização inclusiva e sustentável. E com responsabilidade, deveria haver voz e representação maiores. Precisamos de fazer avançar a agenda de fortalecimento da participação dos países em desenvolvimento por meio do trabalho e pessoal do Grupo Banco Mundial. Aproveito para registar com enorme prazer o regresso ao Banco (onde trabalhou durante 21 anos) da Dra. Ngozi Okonjo-Iweala, antiga Ministra das Finanças da Nigéria, onde agora desempenha o elevado cargo de Directora.

Os países desenvolvidos também estão a enfrentar as oportunidades e limitações da globalização. O senso comum nos países desenvolvidos leva-os a reconhecer que o isolamento não é solução. A decência comum, bem como o interesse próprio, fazem-nos entender a interdependência, mesmo quando discutem a melhor forma de o conseguir.

Em comparação com a escala desses desafios globais o Grupo Banco Mundial é uma instituição modesta. No entanto, juntamente com os seus parceiros multilaterais – as Nações Unidas e seus organismos especializados, o FMI, a OMC e os bancos regionais de desenvolvimento – o Grupo Banco Mundial precisa desempenhar um papel importante relativamente ao progresso de uma globalização inclusiva e sustentável. As instituições multilaterais têm sido assacadas e criticadas. Precisam de combinar deliberações com resultados eficazes. Têm de superar debilidades internas e explorar os seus pontos fortes. Juntos, devemos mostrar que o multilateralismo pode funcionar – não apenas em salas de conferência e comunicados - mas nas aldeias e cidades fervilhantes onde vivem os mais necessitados.

Seis Temas Estratégicos

Qual então deve ser a orientação estratégica do Grupo Banco Mundial?

Primeiro, o Grupo Banco Mundial enfrenta o desafio de ajudar a ultrapassar a pobreza e a fomentar o crescimento sustentável nos países mais pobres, especialmente em África. A IDA é o instrumento central de financiamento para os 81 países mais pobres.

Nestes países precisamos de nos concentrar intensamente com os nossos parceiros em alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milénio. Essas necessidades básicas estabelecerão os alicerces do futuro.

No entanto, a mensagem que me foi transmitida quando viajei a África em Junho e à Ásia em Agosto, é que os objectivos de desenvolvimento social eram necessários, mas não suficientes. As boas notícias é que 17 países africanos, que abrigam 36% da população, terem alcançado um crescimento médio anual de 5,5%, de 1995 a 2005. Estes países querem ajuda na construção de infra-estruturas com vista a um maior crescimento, especialmente em matéria de energia e instalações físicas para apoiar a integração regional. Querem também a nossa ajuda no desenvolvimento de mercados financeiros locais, incluindo microcrédito, que possam mobilizar a poupança africana para o crescimento de África.

Os líderes africanos vêem grande potencialidade na expansão da agricultura, cada vez mais através do aumento da produtividade. O recente Relatório sobre Desenvolvimento Mundial do Grupo Banco Mundial destaca que o crescimento do PIB proveniente da agricultura beneficia os mais pobres quatro vezes mais do que o crescimento oriundo de outros sectores. Precisamos de uma Revolução Verde do século XXI estruturada para atender às necessidades especiais e diversificadas de África. Precisamos de maior investimento em pesquisas tecnológicas e divulgação, gestão sustentável da terra, cadeias de abastecimento agrícola, irrigação, microcrédito rural e políticas que intensifiquem as oportunidades de mercado, ao mesmo tempo que respondem às vulnerabilidades e inseguranças rurais. Também é necessário que mais países abram os seus mercados às exportações agrícolas.

Outros 8 países africanos, que abrigam cerca de 29% da população, tiveram um crescimento médio de 7,4% entre 1995 e 2005, fruto dos seus recursos petrolíferos. Para estes estados e para alguns países da IDA noutras regiões, o desafio principal de desenvolvimento está em estimular a boa governação e as políticas de combate à corrupção, juntamente com a expansão da capacidade do sector público local, a fim de garantir que os rendimentos dos recursos construam um futuro sustentável para todos os cidadãos.

Também tivemos a oportunidade de criar novas parcerias para assistir os mais pobres. O Grupo Banco está actualmente a trabalhar com a Rússia, China, Brasil e Índia para apoiar as necessidades dos estados mais pobres.

Em segundo lugar, precisamos de abordar os problemas especiais dos Estados que estão a sair de um conflito ou procurar evitar o colapso do estado.

Quando os visionários de Bretton Woods idealizaram o BIRD há mais de 60 anos, o “R” representava a reconstrução da Europa e do Japão. Hoje, o “R” aponta-nos para o desafio da reconstrução nos Estados prejudicados pelos conflitos modernos.

Infelizmente, estes conflitos não apenas acarretam um sofrimento extraordinário para as pessoas directamente envolvidas, mas os efeitos secundários também retardam o progresso de seus vizinhos.

Francamente, o nosso conhecimento de como lidar com estes casos devastadores é, na melhor das hipóteses, reduzido. Suponho que precisemos de uma abordagem mais integrada que envolva segurança, estruturas políticas, reconstrução da capacidade local com apoio rápido, reintegração dos refugiados e maior flexibilidade na assistência para o desenvolvimento. O trabalho construtivo do Grupo Banco na Bósnia, Ruanda e Moçambique atestam o que é possível conseguir-se. A capacidade de adaptação e os rápidos desembolsos da IDA demonstraram ser vitais nos ambientes pós-conflito e estamos a trabalhar com outros parceiros de desenvolvimento para aumentar a nossa eficácia.

Actualmente, estamos a operar no Sul do Sudão, Libéria, Serra Leoa, República Democrática do Congo, Burundi, Costa do Marfim, Angola, Timor-Leste, Papua Nova Guiné, Estados Insulares do Pacífico, Afeganistão e Haiti, entre outros. Se houver um acordo de paz real em Darfur, apoiado por uma sólida força de segurança das Nações Unidas/União Africana, o Grupo Banco Mundial gostaria de ajudar.

Terceiro, o Grupo Banco Mundial precisa de um modelo de negócios mais diferenciado para os países de rendimento médio. Actualmente, cerca de 70% dos pobres vivem na Índia, China e nos países de médio rendimento servidos pelo BIRD. Em muitos casos, o rápido crescimento económico não proporcionou oportunidades para os pobres. Os serviços sociais continuam a precisar de fundos. Os problemas ambientais e energéticos são graves. E permanece o potencial para volatilidade no fluxo de capital para esses países, semelhantes aos que observámos na década de 80 e de 90.

Cientes de tais desafios, os nossos membros de rendimento médio querem que o Grupo banco Mundial continue o seu comprometimento através de um menu diversificado de “soluções para o desenvolvimento”. Mas este compromisso precisa de reflectir os importantes avanços na sua posição financeira e capacidade institucional durante a última década. Querem que o BIRD, por exemplo, preste serviços bancários muito mais flexíveis e com preços melhores, com menos burocracia e mais agilidade. Querem um conhecimento talhado às suas necessidades, disponibilizado na hora e serviços de consultoria nestes mesmos moldes. Pretendem que a IFC os ajude a desenvolver soluções para o sector privado dos mercados subdesenvolvidos e até mesmo necessidades sociais. E estão a impor-nos padrões cada vez mais elevados de qualidade, de consistência e de custo-eficácia nos nossos serviços de assessoria. Em suma, querem desempenho e é exactamente o que pretendemos fornecer-lhes.

Para alguns países de rendimento médio, os nossos serviços incidirão cada vez mais nas áreas de gestão do risco e aplicação da experiência de âmbito global às necessidades locais. Podemos oferecer aumentos de crédito, protecção cambial e perícia neutra que vai ajudar a construir a competência para a gestão de activos. Podemos ajudar a criar fundos de obrigações e índices em moeda nacional. Podemos oferecer financiamento em moedas nacionais para ajudar a combinar os nossos empréstimos com a gestão do risco cambial. Para incentivar o crescimento inclusivo dentro dos países podemos trabalhar com as autoridades subnacionais. No momento, estamos a desenvolver instrumentos de financiamento de contingência para auxiliar as necessidades de liquidez de emergência durante choques financeiros, assim como seguros e mecanismos no mercado de capitais destinados a aumentar a disponibilidade e a baixar o custo de cobertura de catástrofes naturais, tais como furacões e terramotos. Algumas destas actividades levar-nos-ão a explorar a melhor maneira de prestar serviços e conhecimento remunerados, oferecendo aos nossos países clientes uma opção de fornecimento, com ou sem financiamento.

Quarto, o Grupo Banco Mundial precisará de desempenhar um papel mais activo na promoção dos bens públicos regionais e globais que transcendem as fronteiras nacionais. Fazemos questão garantir que esta agenda esteja vinculada às metas de desenvolvimento. O nosso trabalho em matéria de bens públicos regionais e globais vai exigir uma estreita cooperação com outras agências que dispõem de conhecimentos especializados, como é o caso da OMS, UNEP, UNODC e OMC.

O Grupo Banco Mundial já demonstrou a sua potencialidade para auxiliar no combate a doenças transmissíveis por intermédio do seu trabalho com VIH/SIDA, malária, gripe aviária e desenvolvimento de vacinas. Estamos agora a reexaminar formas de reforçar o elo entre ajuda e comércio.

Estamos a trabalhar com o nosso Conselho com vista a aumentar consideravelmente a nossa assistência aos esforços internacionais destinados a resolver as alterações climáticas. Na Conferência da ONU sobre Alteração do Clima, em Bali, em Dezembro próximo, espero apresentar um conjunto das formas em que o Grupo Banco Mundial pode ajudar a integrar as necessidades de desenvolvimento e a redução das emissões de carbono. Precisamos de nos central sobremaneira nos interesses e necessidades dos países em desenvolvimento, para que possamos responder ao desafio da mudança do clima sem abrandar o crescimento que os irá ajudar a vencer a pobreza

O nosso principal objectivo será ajudar os países a “integrarem consistentemente” medidas de adaptação e de atenuação nas suas estratégias de crescimento, incluindo planos para desenvolvimento de energia, agricultura e utilização da terra. O Grupo Banco também pode oferecer mecanismos inovadores e de financiamento subsidiado, como o novo Mecanismo de Parceria para o Biocarbono, tendo em vista assistir na mitigação, adaptação e rápida penetração da inovação tecnológica. Como acontece com a substituição do carbono, temos capacidade para lançar e prosseguir novos mecanismos de mercado de maneiras que possam assistir os países em desenvolvimento. Com a ajuda da IFC, podemos também promover a criação de climas de negócios e de políticas públicas que irão proporcionar o capital privado, necessário para responder a este desafio.

Os países e populações pobres correm maior risco de sofrerem os efeitos da alteração climática e são os que estão menos protegidos. O Grupo Banco Mundial pode apoiar uma maior resistência aos riscos climáticos. Podemos promover avanços tecnológicos e a sua adopção, sobretudo no mundo em desenvolvimento. Refira-se, por exemplo, a premência de novas capacidades que permitam sequestrar eficientemente o carbono. Com vista a aumentar a aptidão dos países em desenvolvimento para determinar as suas próprias estratégias para o baixo crescimento das emissões de carbono podemos apoiar a pesquisa aplicada e desenvolvimento do conhecimento sobre economia relativa à mudança climática nos países em desenvolvimento.

Com base neste pacote de actividades de apoio e no conhecimento que desenvolvemos, o Grupo Banco Mundial ficaria também disponível para audar a informar as discussões da política internacional sobre regimes possíveis para a alteração climática.

Mas tal não tem de ser uma escolha entre crescimento e preocupação com o ambiente. Os países em desenvolvimento – e os países africanos em particular – estão preocupados com o facto de os recursos para as alterações climáticas serem disponibilizados com o sacrifício de outras necessidades fundamentais do desenvolvimento. É mais uma razão para que os países desenvolvidos façam corresponder à retórica as suas contribuições de recursos para a IDA-15.

Quinto, um dos desafios mais notáveis do nosso tempo é como apoiar aqueles que procuram promover o desenvolvimento e as oportunidades no mundo árabe. No passado, estas terras estiveram no centro do comércio e do conhecimento, sugerindo essa potencialidade se conseguirem ultrapassar o conflito e as barreiras ao crescimento e ao desenvolvimento social. Sem um crescimento de base ampla, esses países enfrentarão tensões sociais e um grande número de jovens incapazes de obter emprego. O Relatório Árabe sobre Desenvolvimento Humano das Nações Unidas apresenta auto-avaliações significativas.

Como Representante Comercial dos Estados Unidos, trabalhei em estreita colaboração com líderes do Magreb ao Golfo que estavam a abrir as suas economias e sociedades. Alguns tinham abundantes recursos energéticos e capital, mas pouca diversidade económica e capacidade para criar empregos. Outros procuravam melhorar as escolas, intensificar a adopção de tecnologia e expandir o emprego através da desregulamentação do comércio e da actividade económica. Vários estavam a intensificar os vínculos de produção com a Ásia por intermédio de investimentos recíprocos, comércio e aumento de centros de serviços.

O nosso recente relatório Doing Business 2008 demonstra que o progresso é possível. O Egipto lidera a lista de economias que estão a reformar os regulamentos para facilitar os negócios. A Arábia Saudita eliminou níveis de burocracia que haviam transformado o país num dos lugares mais difíceis de se iniciar um negócio e que também eliminou os requisitos de capital mínimo.

São passos encorajadores, mas há muito mais a fazer. Uma globalização inclusiva deve oferecer benefícios para todas as pessoas destes estados. À medida que os governos árabes procurarem prestar serviços sociais eficazmente a todos os seus povos, podemos contribuir com experiência comparativa. Podemos auxiliar na criação de ambientes propícios aos negócios. Para alguns, talvez possamos financiar projectos de desenvolvimento, administrar fundos fiduciários de dadores ou promover a expansão de serviços do sector privado, através da IFC. Hoje, estamos a ajudar a prestar serviços sociais básicos e apoio à boa governação e ao crescimento do sector privado, o que poderia constituir a base económica para a esperança, se as partes escolherem o caminho da paz.

Finalmente, embora o Grupo Banco Mundial tenha alguns dos atributos duma empresa financeira e de desenvolvimento, o seu objectivo é muito mais amplo. É uma instituição singular e especial de conhecimento e aprendizagem. Embora não seja uma universidade – na realidade é um “grupo de peritos” de experiência aplicada que nos ajudará a abordar os cinco outros temas estratégicos. Divulgar, expandir e testar esta aprendizagem - acompanhada de financiamento ou isoladamente – é a parte mais importante do nosso trabalho.

Contudo, devemos continuar a desafiar-nos com a pergunta: o que é preciso para alcançar desenvolvimento e crescimento inclusivos e sustentáveis?

Este desafio exige humildade – e honestidade intelectual. Muitos planos e sonhos de desenvolvimento fracassaram. Isto não é motivo para deixar de tentar. É causa para um enfoque contínuo e rigoroso nos resultados e na avaliação da eficácia.

Estes seis temas estratégicos oferecem uma orientação – a ser discutida, aprimorada e ampliada. Acolhemos com agrado o parecer e orientação dos nossos accionistas. Há uma enorme necessidade – e uma oportunidade imperativa – para o Grupo Banco Mundial neste momento da história.

Desafios Internos: Boa Governação e Combate à Corrupção

Para ter sucesso, o Grupo Banco Mundial deve também enfrentar directamente os seus próprios desafios internos. Precisamos de usar o nosso capital com mais eficácia e centrar-nos mais nos serviços aos clientes. Temos de incorporar a capacitação das mulheres em todas as nossas agendas. Devemos fortalecer os nossos vínculos com as organizações da sociedade civil e ONGs de modo a podermos aprender com elas. Reflectindo a nova “arquitectura da ajuda”, precisamos de trabalhar mais eficazmente com os programas nacionais de ajuda, recursos financeiros voltados para projectos específicos de doenças, fundações, ONGs na área e empresas privadas interessadas em desafios do desenvolvimento. E precisamos de mais voz e representação no nosso Conselho e maior diversidade na nossa força de trabalho.

Como ressaltou um recente relatório dum painel liderado por Paul Volcker, antigo Presidente do Conselho de Administração da Reserva Federal, também temos muito a fazer no que respeita ao fortalecimento da nossa abordagem para lidar com a governação e a corrupção. O painel apresentou-nos um conjunto abrangente de recomendações, que vão ser consideradas. Estamos a acompanhar prontamente e a receber com muito interesse o parecer de terceiros, a discutir ideias com o nosso Conselho e a deslocar-nos no sentido de melhorias operacionais. activo às recomendações do painel, a procurar as opiniões de terceiros, a discutir ideias com a nossa Direcção Executiva e a melhorar as nossas operações.

A minha experiência diz-me que as pessoas do Grupo Banco Mundial estão conscientes da importância crítica da agenda da Governação e Combate à Corrupção. Têm orgulho na missão de desenvolvimento que desempenham, querem preservar a integridade da sua instituição e sabem que a corrupção defrauda sobretudo os mais pobres e os mais fracos. Juntos, faremos melhor.

O Grupo Banco Mundial pode também oferecer liderança no que toca a integrar medidas para boa governação e políticas legais na agenda de desenvolvimento. Há apenas um mês, reunimo-nos com a ONU para lançar a Iniciativa de Recuperação de Bens Roubados - ou StAR – com vista a conseguir a cooperação conjunta de países desenvolvidos e em desenvolvimento para a recuperação dos valores roubados por força da corrupção. Já fomos abordados por vários países com o pedido de ajuda.

Conclusão

Há muito que o Grupo Banco Mundial pode fazer para funcionar como catalisador para uma globalização inclusiva e sustentável, mas não podemos fazê-lo sozinhos. Agradeço aos meus colegas europeus as iniciativas criativas que propuseram desde que tomei posse. No entanto, existe também uma necessidade crítica de os países em desenvolvimento integrarem os múltiplos esforços de ajuda numa plataforma de desenvolvimento coerente, centrada em resultados, eficácia e controlo nacional. Sei que os Ministros das Finanças têm um papel muito poderoso nos orçamentos: precisamos que usem o vosso poder em favor dos pobres, com o aumento das contribuições à IDA. A promessa do Grupo Banco Mundial de contribuir com USD 3 500 milhões “transforma as palavras em dinheiro”. E V. Exas. também?

Senhor Presidente, seria um sinal concreto de compromisso multilateral para com a prosperidade global se os membros do G-8 e outros países desenvolvidos cumprissem a sua promessa de Gleneagles de aumentarem a sua ajuda a África e aos mais pobres.

Seria um sinal concreto de compromisso multilateral para com a prosperidade global se os membros da OMC ultrapassassem o impasse na Agenda de Desenvolvimento de Doha. Este fim de semana, o Director-Geral Pascal Lamy disse que era possível fazer um acordo e talvez seja a nossa última oportunidade de ter sucesso. Estou de acordo com ele. O Grupo Banco Mundial fará tudo o que puder para ajudar os países em desenvolvimento a usufruírem das vantagens da maior abertura dos mercados e da redução drástica dos subsídios.

As pessoas sabem, instintivamente, que o isolamento não é solução de sucesso. Sabem que somos parte de algo maior que nós próprios. Quer sejamos representantes de governos ou de organizações multilaterais, vamos mostrar que temos a consciência, o compromisso e a determinação de fazer a globalização funcionar para todos.




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