Para ler a tradução em português brasileiro, dê um clique aqui Robert B. Zoellick Presidente do Grupo Banco Mundial Centro para o Desenvolvimento Global, Washington, D.C. 2 de Abril de 2008 Em Outubro do ano passado, pouco depois de entrar para o Grupo Banco Mundial, eu propus uma visão para orientar o nosso trabalho: ajudar a construir uma globalização inclusiva e sustentável – para superar a pobreza, aumentar o crescimento sem descuidar o meio ambiente e criar oportunidade e esperança para o indivíduo. No mês seguinte, fui a uma reunião do G-20 nos arredores de Capetown, um conclave de Ministros de Finanças e autoridades dos Bancos Centrais dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, presidido naquela época pelo competente sul-africano Trevor Manuel. Durante as discussões formais, alguns participantes, ao examinarem o tumulto financeiro do verão setentrional, começaram a pressagiar os acontecimentos que abalariam os mercados nos meses seguintes; e, como sói acontecer com frequência, os intercâmbios informais nos intervalos estavam repletos de advertências e questionamentos sobre riscos. Os meses subsequentes trouxeram o reconhecimento das enormes perdas nos valores imobiliários e hipotecários, perdas de crédito, perdas de Directores Executivos, mais perdas reconhecidas ao procurarem esses Directores Executivos limpar os balancetes, o trauma de seguradoras de linhas monolíticas com efeitos de choque sobre transacções estruturadas, preocupações a respeito de contrapartes e as eventuais recapitalizações e aquisições. Mais recentemente, presenciamos os ataques sobre os balancetes de bancos comerciais, que obrigaram imediatamente reavaliar os activos em função do mercado. A liquidez de curto prazo encolheu sob o calor da seca financeira e informativa. Alavancagens financeiras de todos os tipos – bancos de investimento, fundos de capital social privado, hedge funds e até mesmo os títulos comerciais das empresas – foram queimadas em busca de liquidez. À medida que instituições financeiras sedentas conservavam os seus depósitos, o modelo de securitização de fluxos de caixa escalonados, perdas subordinadas e os aumentos do crédito contraíam-se, deixando a descoberto os geradores de empréstimos. E presenciamos o rosto humano das pessoas a lutar contra essas forças aparentemente impessoais. Os Estados Unidos tiveram a sorte de contar com baluartes financeiros firmes e práticos nestes momentos perturbadores: Hank Paulsen, Secretário do Tesouro; Ben Bernanke, Presidente da Reserva Federal; e Tim Geithner, Pesidente do New York Fed. Os Ministros das Finanças e autoridades dos bancos centrais do mundo inteiro estão em contacto estreito e constante. Parte do seu desafio – e do nosso – é compreender os efeitos deste tumulto financeiro da assim chamada economia “real” – sobre o crescimento, emprego, preços, salários, lucros, comércio, moradia e negócios – sobre indivíduos e famílias. Além disso, o declínio financeiro vem combinado com duas outras mudanças: aumento dos preços globais da energia e produtos e redução do amortecimento de preços resultante de trazer na última década centenas de milhares de trabalhadores de novos países em desenvolvimento para a força de trabalho mundial. Sabemos que os efeitos macroeconómicos dessas reversões não são bons, mas permanecem obscuros o alcance e os tipos exactos de influência. A questão dos efeitos sobre a economia global “real” vincula a agitação financeira de hoje ao nosso trabalho em globalização e desenvolvimento inclusivos e sustentáveis, com seus efeitos sobre as pessoas que procuram uma vida melhor. A diferença notável entre este período de mudanças financeiras drásticas e os do passado é o desempenho dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Num seminário realizado em Agosto do ano passado, uma autoridade mexicana observou ironicamente que desta vez o seu país não era responsável. De facto, os Estados Unidos precisarão de aprender lições sobre regulamentação e supervisão financeiras num mercado em constante evolução, mesmo ao trabalhar com outros para enfrentar prejuízos e reconstruir. Não somente mudou o epicentro do terramoto, mas, até agora, os tremores têm abalado os mercados de forma diferente. Os spreads do crédito, historicamente restritos, sobre a dívida dos mercados emergentes aumentaram de certa forma, embora modestamente em comparação com praticamente todos os outros produtos creditícios. Naturalmente, os mercados financeiros dos países em desenvolvimento não permanecerão isolados; as taxas de câmbio têm passado por fluxos acentuados, os preços do capital social nos mercados emergentes têm sofrido e os spreads da dívida não-governamental têm aumentado substancialmente, a acompanhar o ritmo das suas contrapartes noutros lugares. De suma importância: há algo drasticamente diferente nessa contracção: a China, a Índia e outras potências económicas em crescimento oferecem pólos alternativos de crescimento para a economia global. Não se trata de um “desacoplamento”, porque as interconexões da globalização transmitirão efeitos provenientes dos problemas e contração do mundo desenvolvido; representa, ao contrário, uma diversificação bem-vinda das fontes de crescimento. Mais da metade do aumento da demanda global de importações provém agora dos países em desenvolvimento, oferecendo oportunidades de exportação às economias tanto em desenvolvimento como desenvolvidas. Isso significa um reequilíbrio – não um desacoplamento – que apoia uma globalização inclusiva e sustentável. A diversificação é benéfica tanto para uma carteira de investimento como para as fontes de crescimento na economia mundial. Há um desafio de governabilidade em tempos como estes: reconhecer o panorama em evolução, com frequência à medida que se aceleram os eventos e o destino, de forma a atender às necessidades prementes, plantando ao mesmo tempo as sementes que se tornarão as vigas de apoio do futuro. Hoje em dia precisamos de enfrentar ameaças imediatas, construindo ao mesmo tempo uma globalização inclusiva e sustentável que ofereça mais fontes de crescimento e inovação para o futuro, aumente a cooperação multilateral para lidar com choques e desacelerações e maximize a oportunidade e esperança para todos. Portanto, passo agora a destacar quatro necessidades imediatas que também oferecem oportunidades de longo prazo. Em cada uma delas o objectivo será a acção. Altos preços dos alimentos: Um novo plano para a política alimentícia global Ao caírem os mercados financeiros, os preços dos alimentos dispararam. Desde 2005 os preços dos produtos básicos aumentaram 80%. No mês passado, o preço real do arroz atingiu a maior alta em 19 anos; o preço real do trigo a maior alta em 28 anos e quase duas vezes o preço médio dos últimos 25 anos. A boa notícia para alguns agricultores representa um peso esmagador para os mais vulneráveis – crianças, até mesmo de quatro a cinco anos de idade, obrigadas a deixar a segurança de suas comunidades rurais para lutar por comida nas cidades efervescentes; tumultos causados pela fome que ameaçam destruir a sociedade; mães privadas de nutrição para alimentar bebés saudáveis. Segundo estimativas do Grupo Banco Mundial, 33 países do mundo inteiro enfrentam agitação social potencial em consequência do aumento acentuado dos preços dos alimentos e energia. Para esses países, nos quais os alimentos constituem da metade a três quartos do consumo, não há margem de sobrevivência. As realidades da demografia, mudanças na dieta, preços da energia e de biocombustíveis, além da mudança climática, sugerem que os preços altos – e voláteis – dos alimentos ficarão connosco por muito tempo. Um novo plano para a política alimentícia global. Este Novo plano deve enfocar não somente a fome e a subnutrição, o acesso aos alimentos e seu suprimento, mas também as interconexões com a energia, safras, mudança climática, investimento, marginalização das mulheres e outros, bem como elasticidade económica e crescimento. A política alimentícia precisa de conquistar a atenção dos mais altos níveis políticos, porque nenhum país ou grupo, por si só, pode enfrentar esses desafios interligados. Precisamos de começar a ajudar aqueles cujas necessidades são imediatas. O Programa Mundial de Alimentos da ONU requer pelo menos USD 500 milhões em suprimentos alimentícios adicionais para atender a apelos de emergência. Os Estados Unidos, a União Europeia, o Japão e outros países da OCDE precisam de agir sem demora para preencher esse hiato – caso contrário, muitas outras pessoas sofrerão e morrerão de fome. Os preços vertiginosos dos alimentos têm concentrado cada vez mais a atenção no desafio de maiores proporções de superar a fome e a subnutrição, a Meta de Desenvolvimento do Milênio (MDG) “esquecida”. Embora a fome e a subnutrição se enquadrem logo nesta primeira MDG, além da ajuda alimentícia tradicional recebem apenas cerca de um décimo dos recursos devidamente orientados para combater o VIH/SIDA, outro assassino. No entanto, a subnutrição é a MDG com o maior efeito "multiplicador": é o maior factor de risco para crianças com menos de cinco anos de idade e a causa subjacente de cerca de 3,5 milhões de mortes por ano nesta faixa etária. Mais de 20% das mortes maternas são causadas pela subnutrição. Ela enfraquece a imunidade às doenças. Investigações na Guatemala demonstraram que os meninos que receberam suplementos nutritivos nos primeiros dois anos de vida ganhavam, em média, salários 46% mais altos como adultos. Quando as famílias empobrecidas reduzem os gastos, as raparigas são as primeiras a sofrer. A fome e a subnutrição são causa, não apenas resultado, da pobreza. Este Novo Plano requer um sistema mais sólido de prestação de serviços para superar a fragmentação na segurança alimentícia, saúde, agricultura, água, saneamento, infra-estrutura rural e políticas de género. A passagem da ajuda alimentícia tradicional para um conceito mais amplo de assistência alimentícia e nutrição deve ser parte deste Novo Plano. Em muitos casos, dinheiro ou cupões, em oposição a apoio a produtos básicos, é a forma apropriada e possibilita à assistência criar mercados locais de alimentos e produção agrícola. Quando os produtos básicos são necessários, comprar de agricultores locais pode fortalecer as comunidades. Os fundos podem comprar micronutrientes adaptados a cada local. Os programas de almoço escolar atraem crianças às salas de aula, ajudam as crianças saudáveis a aprender e até mesmo oferecem alimentos aos pais. O Grupo Banco Mundial pode ajudar apoiando medidas de emergência que ajudam as pessoas de baixa renda, promovendo ao mesmo tempo incentivos para produzir e comercializar alimentos como parte do desenvolvimento sustentável. Países tão diversos como Butão e o Brasil, Madagáscar e Marrocos têm programas de alimentação para grupos vulneráveis. Moçambique, Camboja e Bangladesh utilizam programas de obras públicas localmente seleccionados em troca de alimentos – desenvolvendo estradas, poços, escolas, protecção contra desastres naturais e florestas. Outros, como a China, Egipto, Etiópia e México oferecem transferência de dinheiro em efectivo em troca de acções de auto-ajuda – enviar os filhos à escola ou exames médicos preventivos. Os países também precisam de eliminar barreiras fronteiriças perigosas ao comércio de alimentos, as quais expõem países vizinhos em necessidade a um maior risco e suprimem sinais de estímulo a uma maior produção. Nós trabalharemos com os países, especialmente em África, e com instituições parceiras para aproveitar oportunidades provenientes de maior demanda de alimentos. O nosso Relatório sobre Desenvolvimento Mundial 2008, sobre Agricultura para o Desenvolvimento, indica o caminho. Podemos ajudar a criar uma “revolução verde” para a África Subsariana prestando assistência aos países no aumento da produtividade por meio da cadeia de valores agrícolas e os pequenos agricultores a romper o ciclo da pobreza. Aumentaremos quase duas vezes os nossos empréstimos para agricultura em África, de USD 450 milhões para USD 800 milhões e podemos ajudar os países e agricultores a lidarem com riscos sistémicos, inclusive por meio de inovações financeiras para enfrentar variações climáticas, tais como a seca. Podemos oferecer acesso à tecnologia e à ciência para aumentar as safras. A Corporação Financeira Internacional (IFC), o nosso ramo do sector privado, aumentará o investimento e o apoio de assessoria às operações de agronegócios em África e em outras partes, inclusive a trabalhar com o Banco Mundial na obtenção de título de propriedade da terra e produtividade, financiamento em moeda nacional, capital de giro, distribuição e logística e apoio a serviços intermediários dos quais dependem os agricultores. Para ter o maior grau de êxito precisaremos de integrar e mobilizar uma série diversificada de parceiros – FAO, WFP, e IGAD; outros bancos multilaterais de desenvolvimento; doadores privados, tais como a Gates Foundation; institutos de pesquisas agrícolas; países em desenvolvimento em muita experiência em agricultura, como o Brasil; e, acima de tudo, o sector privado. Um Novo Plano de Política Alimentícia Global contribuirá para um desenvolvimento inclusivo e sustentável. Os países de baixa renda, média renda e desenvolvidos se beneficiarão em conjunto. Os ganhos de renda da agricultura têm três vezes mais capacidade de superar a pobreza do que os aumentos em outros sectores e 75% dos pobres do mudo estão na zona rural e a maioria trabalha na agricultura. Quase todas as mulheres ativas nas economias dos países em desenvolvimento trabalham na agricultura. Se receberem apoio, as mulheres podem aproveitar as oportunidades da demanda globalizada de alimentos. Agora ou nunca num Plano Global de Comércio Os pobres precisam agora de alimentos de preços mais baixos. No entanto, o sistema de agricultura comercial está preso no passado. Se alguma vez chegar o momento de cortar subsídios agrícolas deformantes e abrir os mercados para a importação de alimentos, esse momento é agora. Se não for agora, quando? Um sistema global de comércio mais equitativo e mais aberto para a agricultura oferecerá mais oportunidades – e confiança – a agricultores africanos e de outros países em desenvolvimento para expandir a produção. O Grupo Banco Mundial pode ajudar os países em desenvolvimento a aproveitar as possibilidades ampliando a capacidade de comercializar, superando barreiras para atingir mercados e ajudando no financiamento do comércio. Os contribuintes e os governos podem poupar os custos de subsídios e melhorar os orçamentos. A solução é romper o impasse da Agenda de Desenvolvimento de Doha em 2008. Pascal Lamy, Director-Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), está a planejar nas próximas semanas a convocação de uma reunião de Ministros do Comércio. Este é o momento de decisão para a Rodada de Doha. Lamy tem trabalhado paciente e persistentemente com os Presidentes de Comissões da OMC dos grupos de negociação para diminuir as diferenças. Há muito em jogo. É agora ou nunca. É um resultado ambicioso: os cortes nas tarifas de bens tanto agrícolas como manufacturados deverão ser feitos por meio de fórmulas que reduzam cifras mais altas, em vez de utilizar uma percentagem directa; os subsídios agrícolas mais altos também deverão ser reduzidos mais drasticamente. O desafio principal agora é equilibrar os cortes tarifários profundos e progressivos com “flexibilidades” que ofereçam excepções. Essas excepções não devem engolir os cortes; na medida do possível, as flexibilidades devem oferecer perspectivas para ampliar o comércio à medida que crescem as economias. Alguns sugeriram que os países em desenvolvimento ganharão em termos de agricultura ao deixarem de lado a protecção das manufacturas. Isso é enganoso. Considerando o aumento das manufacturas dos países em desenvolvimento e a terceirização global, as economias tanto em desenvolvimento como desenvolvidas ganharão com a redução de barreiras aos produtos. O plano deve também impulsionar os mercados de serviços, que constituem uma parcela crescente do PIB global, possibilitam o desenvolvimento e a infra-estrutura em âmbito nacional e complementam as medidas para facilitar o comércio. O plano também esclarece as “regras” que dificultam o comércio. Essas negociações não são jogos de póquer em âmbito mundial, nos quais os Ministros estão com as cartas mais altas e o vencedor leva todas as fichas. São exercícios complexos de solução de problemas. Todos devem ir retornar com benefícios e explicações políticas. Os líderes políticos precisam também de impulsionar os benefícios de um “panorama mais amplo”. Esse acordo contribuiria para a globalização inclusiva e sustentável: Mais oportunidades para os países em desenvolvimento, tanto grandes como pequenos, de renda média ou baixa, se tornarem mais produtivos e reduzirem preços por meio do comércio; uma maior sentido de justiça para todos na economia internacional, alcançado por meio da modernização de um sistema existente há meio século. Um avanço na Rodada de Doha também infundiria confiança num sistema económico stressado pela ansiedade financeira. Este momento de decisão não diz respeito apenas à Rodada de Doha; visa ao comércio como tal. Vozes poderosas em todo o espectro político, inclusive em meu próprio país, estão a propor e racionalizar o proteccionismo. Esse isolacionismo económico indica derrotismo que colherá as perdas, não os ganhos, da globalização. Nesta era de globalização, o destino da negociação de Doha estende-se além do comércio e da economia tradicional. Essas conversações sobre comércio são um teste crítico para o desafio de conseguir um plano global em matéria de mudança climática. De modo geral, a economia que fundamenta as negociações de comércio vem sendo aceite há muitos anos. Se os negociadores de 150 economias não podem administrar as compensações políticas da Rodada de Doha para colher os benefícios claros, não são um bom augúrio para unir os países desenvolvidos e em desenvolvimento num novo acordo de mudança climática. Revertendo a maldição dos recursos: Lançamento de uma iniciativa de transparência na indústria extractiva Se os altos preços actuais de energia e minerais representam custos para alguns, oferecem a outros oportunidades no mundo em desenvolvimento. Alguns países têm usado os seus recursos naturais como trampolim para o desenvolvimento, mas para outros esse tesouro pode tornar-se uma maldição. Os países tanto desenvolvidos como em desenvolvimento têm sofrido os riscos dos seguintes sectores: economias “duplas” que excluem a maior parte dos cidadãos; corrupção decorrente de licenciamento e contratos favoráveis; retornos voláteis que tentam as autoridades e enfraquecem orçamentos sustentáveis e o crescimento; a “síndrome holandesa” das taxas de câmbio impulsionadas pela exportação de recursos, prejudicando o comércio e emprego de base ampla; “alugueres” de recursos que alimentam conflitos entre facções de caçadores de fortunas; custos ambientais enormes; e até mesmo um sentido de perda de soberania, na medida em que alguns poucos privilegiados parecem beneficiar-se da venda de “patrimónios nacionais”. A Iniciativa de Transparência nas Indústrias Extractivas (EITI++) foi lançada pelo Primeiro-Ministro britânico Tony Blair em 2002, com o compromisso de líderes africanos na Parceria para o Desenvolvimento de África (NEPAD). A EITI++ melhora a governação de recursos dos países ricos promovendo a plena divulgação e verificação de pagamentos a empregas e receitas públicas provenientes de petróleo, gás e mineração. A EITI++ transformou-se numa coalizão internacional de governos, Grupo Banco Mundial, empresas de petróleo, gás e mineração, entidades industriais, investidores e organizações da sociedade civil, tais como Transparency International, Oxfam e Global Witness. Hoje, 24 países estão a implementar a EITI++ – 17 deles na África Subsariana. No entanto, a transparência nas receitas não basta. Para ajudar a assegurar que os altos preços dos recursos da energia e mineração se transformem em melhorias para a vida das pessoas de baixa renda, nós trabalharemos com os países em desenvolvimento nossos clientes e com outros parceiros na expansão dos conceitos de transparência e boa governação em sentido tanto ascendente como descendente – enquadrando a EITI++ como abordagem abrangente para complementar o projecto original. Estamos a identificar medidas para ajudar as indústrias extractivas a contribuir para o desenvolvimento sustentável mediante a análise de risos em toda a cadeia de valores. Incluiremos a adjudicação de contratos, monitorização de operações, colecta de impostos, melhoria da extração de recursos e decisões de gestão económica, melhor gestão da volatilidade de preços e investimento de receitas de forma eficaz no desenvolvimento sustentável. Para iniciar agora, estamos a formular um mecanismo destinado a ajudar a aumentar a capacidade dos governos, oferecendo assistência muito mais rápida do que por meio das nossas operações tradicionais de empréstimo; estamos empenhados em desenvolver e divulgar boas práticas, padrões e códigos, bem como sugerir estruturas fiscais, jurídicas e normativas. Estamos a buscar as parcerias mais sólidas no desenvolvimento dessas ideias com nossos clientes, porque a “propriedade nacional” do enfoque da EITI++ é crítica para seu sucesso. Estamos também a reunir uma comissão assessora de grupos interessados para nos orientar. Por exemplo, em conjunto com o Banco Africano de Desenvolvimento, União Africana, Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental e União Monetária da África Ocidental, estamos empenhados em lançar uma EITI++ na Guiné. O desenvolvimento bem sucedido dos ricos recursos da Guiné podem fortalecer o desenvolvimento sustentável de toda a região. A EITI++ pode avançar a globalização inclusiva e sustentável ampliando o número de beneficiários do desenvolvimento de recursos. A anticorrupção e a transparência fortalecerão a confiança dos cidadãos nos respectivos governos como fiduciários de uma riqueza comum. No tocante ao meio ambiente, intensificaremos o crescimento sustentável. E o acesso eficaz a esses recursos minerais e energéticos, em todos os ciclos, fortalecerão a sustentabilidade dos benefícios da globalização para outros. Uma “solução de um por cento” para o investimento de capital em África As economias emergentes da China, Índica, Brasil e de outros países têm fortalecido e reequilibrado a economia internacional, oferecendo novos pólos de crescimento. Elas são os novos “grupos interessados” na globalização. O Grupo Banco Mundial também indicará meios de prestar assistência a esses clientes se a tempestade do crédito e a seca da liquidez soprarem em sua direcção. Temos também um meta estratégica mais ampla: Precisamos de possibilitar às economias em crescimento de África se tornarem um pólo complementar de crescimento nos próximos 10 a 15 anos. Estamos a formular uma “Solução de Um Por Cento” para o investimento de capital em África ser um passo para alcançar essa meta. Onde alguns vêem fundos soberanos como fontes de preocupação, nós vemos oportunidade. Hoje os fundos de riqueza soberana retêm activos estimados em USD 3 triliões. Se o Grupo Banco Mundial puder criar plataformas de investimento de capital e padrões de referência para atrair esses investidores, a alocação de até mesmo 1% dos seus activos significaria USD 30 bilhões para o crescimento, desenvolvimento e oportunidade em África. Este 1% poderia ser o início de algo muito maior, abrangendo muitos tipos de fundos e países, porque o investimento da riqueza no capital para o desenvolvimento oferece oportunidade e não algo a temer. Os cépticos poderão balançar a cabeça. Mas consideremos as incertezas das perspectivas da China e da Índia em 1993. Cinco anos mais tarde, o mundo olha para a China somente para manter a estabilidade da moeda em meio ao tumulto no Leste Asiático. Hoje a China e Índia são motores, ainda enfrentam problemas complexos e difíceis, mas são motores do crescimento. Metas que um dia parecem impossíveis, no dia seguinte podem parecer inevitáveis. E o que dizer de África? DE 1995 a 2005, 17 países da África Subsariana, representando 36% da população, cresceram, em média, 5,5% sem o impulso de grandes recursos naturais; oito países produtores de petróleo, representando outros 29% da população, cresceram, em média, 7,4% durante a década. Esses países querem aproveitar os fundamentos do desenvolvimento social das MDGs. Querem crescer. Precisam de energia de baixo custo e confiável; infra-estrutura; integração regional com acesso aos mercados globais; e sectores privados mais fortes. Eles oferecem oportunidades de investimento. Uma lição de reciclagem de petrodólares na década de 1970 é o facto de os investimentos de capital serem mais sustentáveis do que a dívida. Vários fundos de mercados emergentes já começaram a investir em África no longo prazo. Uma das ironias da economia global de hoje é que, embora a liquidez de curto prazo tenha secado, a liquidez de longo prazo permanece ampla. Basta ver os fundos de riqueza soberana, outro recurso proeminente da nova globalização e da crescente influência das economias em desenvolvimento. Alguns fundos soberanos fundamentam-se na procura de petróleo e outros produtos básicos. Outros, especialmente no Sudeste Asiático, surgem do trauma de 1997-98: para “auto-segurar-se” contra calamidades nos mercados de capital, os governos constroem amortecedores de reserva baseados em políticas da taxa de câmbio, superávits do comércio e gestão fiscal prudente. Os fundos soberanos já estão a actuar como um reforço da recapitalização de instituições financeiras. Segundo prevejo, nos próximos meses continuarão a sustentar a globalização – e a ampliar sua inclusividade – por meio de investimentos de capital adicionais, à medida que a desalavancagem do sistema financeiro completa seu curso e a melhor informação esclarece as melhores compras. Sem dúvida, os fundos soberanos precisam de transparência e devem ser orientados pelas melhores práticas para evitar politização. No entanto, a meu ver, devemos comemorar a possibilidade de que os fundos auspiciados pelo governo invistam o capital no desenvolvimento. O Grupo Banco Mundial, especialmente por meio da IFC, pode ajudar a vincular a liquidez global de longo prazo com a oportunidade de investimento em África. A IFC investiu cerca de USD 8 bilhões na África Subsariana desde seu estabelecimento, cerca de USD 1260 milhões em capital somente no ano passado. A IFC está em processo de estabelecer dois novos fundos de USD 100 milhões para infra-estrutura e microcapital. Segundo entendemos, as perspectivas de capital expandem-se rapidamente. A IFC está agora empenhada numa plataforma de arquitectura aberta para fundos, aproveitando o seu acesso, conhecimentos e capital, mas também acolhe joint ventures com governos e seus fundos. Podemos ajudar outros investidores a superar os obstáculos iniciais do investimento em novas oportunidades de capital em África. Podemos ajudar os países a resolverem obstáculos legais e melhorarem os regimes normativo e de preços para investimentos na infra-estrutura. A MIGA pode oferecer seguro contra riscos políticos. Os fundos de riqueza soberana podem unir-se a nós, até mesmo investir conosco, não como fonte diferente de assistência ao desenvolvimento, mas como investidores de longo prazo. A nossa posição torna-nos um “parceiro preferencial”. Tal como o projecto GEMLOC, do Grupo Banco Mundial, está a ajudar a acelerar o desenvolvimento dos mercados da dívida interna em moeda nacional nos países em desenvolvimento como tipo separado de activo, medidos com relação a um novo índice de desempenho, podemos da mesma forma incentivar alocações dos investidores no capital africano como tipo de activo de “fronteira” viável. Esses activos agregarão benefícios no desempenho de carteira e na diversificação, tanto geograficamente como por tipo de investimento. Ao ajudar a construir novos índices para investimentos africanos, o Grupo Banco Mundial também atrairá investidores que precisam de padrões de referência de desempenho. Após isso, nós ou outros poderemos desenvolver fundos indexados para África. Com o correr do tempo, esses veículos poderão utilizar uma série mais ampla de investidores, incluindo fundos pensionáveis. Esta “Solução de Um Por Cento” é uma forma de incluir África nos ganhos totais da globalização. É uma estratégia para fortalecer o sistema globalizado, agregar recursos de crescimento e promover a sustentabilidade da globalização. Conclusão Bismarck disse certa vez que a marca do estadista é reconhecer o Destino no momento em que ocorre, agarrando-se à lapela de seu manto. É chegado o momento do estadismo na economia política. As estruturas antigas estão a desmoronar. Surgem novas fontes de poder económico. A nossa visão, porém, está nublada pelos redemoinhos do mercado, uma vez que as firmas e fortunas, os “juízes” comerciais desta era, são perdidas e refeitas. O Grupo Banco Mundial preparou seis temas estratégicos para alertar-nos para as necessidades e oportunidades à medida que o Destino passa a correr. Eles focam a nossa atenção nas novas soluções de desenvolvimento para os países mais pobres; Estados que enfrentam colapso ou estão a sair de conflito; países de renda média, que integram bens públicos, tais como mudança climática, no nosso trabalho; oportunidades no mundo árabe; e actualização contínua de nossos conhecimentos e aprendizado. O nosso desafio é tomar medidas práticas, agora, que requeiram trabalho e vontade, guiadas por uma perspectiva estratégica. O que é mais fundamental – tanto no passado como no futuro – do que o alimento, energia, minérios, comércio e canalização do capital para investimentos produtivos em regiões de oportunidade, com reforço da boa governação? Aproveitar a oportunidade de mudar o panorama global: Este é o nosso desafio da liderança económica. |