As taxas de crescimento económico continuam em risco perante a crise alimentar, de combustível e financeira
Os africanos têm de assumir a liderança no desenvolvimento do continente
Empregos, governação, infra-estruturas, integração regional, apoio às pequenas e médias empresas, todos eles são cruciais para o sucesso de África
ADIS ABEBA, 2 de Fevereiro de 2010 – As economias africanas continuam em sério risco de contágio pela crise financeira global e vão precisar de manter as reformas e de receber apoio continuado de financiamento, enquanto se recuperam da crise tripla que inverteu o robusto crescimento económico das últimas duas décadas, afirmou terça-feira o Presidente do Banco Mundial.
“As perspectivas de África só podem ser melhoradas pelos próprios africanos, não por estrangeiros, parceiros de desenvolvimento ou países ricos”, disse o Presidente do Grupo Banco Mundial, Robert B. Zoellick, a mais de 200 jornalistas em 22 capitais africanas, numa conferência por vídeo de Adis Abeba.
Os requisitos prévios para o sucesso são abundantes. Incluem a descoberta de formas práticas e eficientes de proporcionar empregos, especialmente a ex-combatentes, logo após os acordos de paz em situações de pós conflito; iniciativas para deter a corrupção e a burocracia paralisante; esforços para melhorar as infra-estruturas e o clima de investimento; e esforços para incentivar o apoio às pequenas e médias empresas. O sucesso também será instigado por uma intensificação da integração regional; uma melhoria na gestão dos bens públicos globais, como por exemplo a energia; e um maior esforço em matéria de captar o génio inovador e criativo dos africanos.
Zoellick referiu que a sua instituição se impôs pelo exemplo, assegurando-se de que os países africanos concebem e executam os seus próprios programas de desenvolvimento; e elevando o apoio dos doadores com vista a mitigar o impacto da crise alimentar, de combustíveis e financeira no continente mais profundamente atingido pela reversão dos fluxos de capital privado, pela austeridade dos orçamentos públicos, pela queda dos preços das matérias-primas e por uma diminuição das receitas provenientes do turismo e das remessas.
No último ano, o Banco Mundial concedeu um valor recorde de USD 88 000 milhões de financiamento ao desenvolvimento, em que cerca de USD 7 800 milhões – um aumento de 36% em relação ao ano anterior – se destinou a África, incluindo USD 3 600 milhões para infra-estruturas e um financiamento à agricultura que quadruplicou, cifrando-se em USD 1 700 milhões.
“Em presença da crise, fizemos mais, não menos”, disse Zoellick, quando apelava a uma reconstituição profunda da Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), o braço do Banco Mundial que atribui doações e empréstimos com 0% de juros aos países pobres, metade deles em África e a uma recapitalização do Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).
O contágio daquilo que começou como uma crise no sector do financiamento imobiliário, sem garantias, nos Estados Unidos representa uma séria ameaça à inversão dos ganhos na redução da pobreza em África que, entre 1997 e 2007 estava a ser impulsionada por taxas de crescimento salutares, na ordem de 5,9% a 8,1% num grupo de países que albergam 65% da população de África. O crescimento durante esse período representou uma roptura com um passado marcado pelo colapso económico da década de 1975-1985 e pela estagnação reinante entre 1985 e 1995.
O financiamento do Banco Mundial direccionou-se para programas de assistência social , para o atendimento das necessidades básicas dos pobres; ajuda à diversificação da agricultura; e contribuiu para criar ou sustentar parcerias com bancos locais, com vista a garantir o fluxo de crédito às pequenas e médias empresas, que são os motores do crescimento, da criação de empregos e de riqueza.
O Banco Mundial está a financiar iniciativas dos governos africanos que apostam em gastar mais em projectos geradores de emprego; em esforços destinados a limitar as oportunidades de corrupção, incluindo através de projectos de e-Government; e em iniciativas para intensificar o impacto transformacional das TIC (tecnologias de informação e comunicação) na área da educação, saúde e prestação de serviços.
Zoellick disse aos repórteres que o Banco Mundial também está a explorar formas de trabalhar com a China, com vista ao desenvolvimento de zonas industriais em toda a África.
O Presidente do Banco Mundial reconheceu que a China está a ter um papel significativo no desenvolvimento das infra-estruturas de África e sublinhou a importância de investimentos que criem empregos localmente, mantenham a dívida em níveis comportáveis e forjem um desenvolvimento inclusivo.
Zoellick citou a Austrália e o Canadá como países onde a exploração mineira tinha impedido o aparecimento de economias enclave, tais como as criadas pelos sectores do petróleo, gás e mineração na maior parte dos países. Aconselhou os governos africanos a empenharem-se num desempenho semelhante, mediante a promoção da transparência e da responsabilização através do processo EITI e assegurando-se que cheguem ao maior número possível de cidadãos o máximo de benefícios.
Zoellick elogiou a colaboração entre o Banco Mundial e a União Africana, assim como com organizações sub-regionais, tais como ECOWAS e COMESA e manifestou a esperança de que os accionistas do Banco Mundial (governos membro) acabem por tomar a decisão de conceder financiamento subvencionado a essas organizações.