Os Ministros das Finanças de quatro países dirigiram-se à imprensa durante as Reuniões de Primavera do Banco Mundial-FMI
Os Ministros afirmaram que as economias africanas têm de se diversificar, para poderem assegurar o crescimento
A integração regional, disseram, é crucial para o futuro de África
WASHINGTON, 17 de Abril de 2011— Em visita à sede do Banco Mundial a 16 de Abril, os Ministros das Finanças do Chade, Lesoto, Togo e Zimbabué fizeram uma avaliação optimista do futuro dos seus países e de África, numa altura em que a região regista uma forte recuperação da crise económica global, tendo, contudo, sublinhado prioridades urgentes, incluindo a criação de emprego.
Os Ministros deram conta de um crescimento económico mais elevado e das tendências positivas em geral, enquanto referiram a necessidade de tomar medidas destinadas a reduzir a dependência das exportações de matérias-primas, colmatar os défices nas infra-estruturas, criar instituições que sirvam o povo, melhorar a educação e os serviços de saúde, promover a cooperação regional, reduzir a dívida e sustentar a estabilidade macroeconómica, entre outros desafios.
África tem de diversificar a sua base económica…
Citando o exemplo do Lesoto, onde as exportações de têxteis para os Estados Unidos foram seriamente afectadas durante a crise, o Ministro Timothy Tahane disse que a lição tirada desta experiência aplica-se a toda a África, onde as economias dependem, frequentemente, das matérias-primas.
“A lição é que África tem de diversificar a sua base económica”, disse. “A nossa estratégia económica para o futuro é a diversificação. Isto deverá ser um verdadeiro desafio para todos nós em África… Não se pode criar empregos numa economia em declínio…pelo que é preciso um enfoque no crescimento de longo prazo [e] na criação de empregos”.
Após uma avaliação franca da crise de longa data do Zimbabué e dos desafios actuais, o Ministro Tendai Biti referiu que o seu país recuperou da hiper-inflação tendo, pela primeira vez em 13 anos, alcançado um crescimento do PIB de 5,5% no ano passado, e projectou um crescimento de 9,1% para este ano.
“Um dos desafios da economia é a forma como medimos as coisas”, disse Biti. “O problema com o crescimento de África é que não é um crescimento inclusivo. Não reflecte, de forma justa, o que está a acontecer no país”.
O crescimento precisa de vir com empregos, afirmou o Ministro, argumentado que África, no período pós Independência, prosseguiu um ‘modelo de desenvolvimento errado’. “Precisamos de um modelo novo de acumulação e distribuição…precisamos de criar uma matriz de crescimento inclusivo”, declarou.
Valor acrescentado será o elemento-chave para a criação de empregos e para um novo ímpeto no crescimento de África, afirmou Biti. Se bem que os dois maiores produtores de cacau estejam em África, referiu o Ministro, os grandes fabricantes — “os Cadburys do mundo”— não estão em África. “Da mesma forma, também não temos fábricas de processamento de platina no Zimbabué”, apesar das consideráveis operações de mineração do país.
O Ministro Gata Ngoulou do Chade reconheceu que o crescimento tendia a ser comandado pelas exportações de matérias-primas, – sobretudo o sector do gás, petróleo e exploração de minério – lamentando que, pela sua própria natureza, as economias de enclave não criem muitos empregos.
Uma das três áreas de incidência da Nova Estratégia para África do Banco Mundial – desenvolvida após consultas extensivas sobre o continente – reclama uma acção urgente destinada a aumentar a competitividade das economias africanas e os investimentos que geram empregos, sobretudo para os 7 a 10 milhões de jovens que, em cada ano, engrossam o mercado de trabalho do continente.
O tipo de crescimento que conduz a um emprego lucrativo “provem da imaginação e criatividade” e da manutenção da “capacidade produtiva”, acrescentou Ngoulou.
…preencher as lacunas nas infra-estruturas
O Togo recuperou a sua solvabilidade, declarou aos repórteres o Ministro Adji Oteth Ayassor.
Após 15 anos de crise, o país obteve recentemente alívio da dívida, com a consecução do chamado ponto de conclusão da Iniciativa PPME/HIPC – o ponto em que o perdão da dívida se torna irrevogável, em grande medida, em reconhecimento das reformas implementadas e formuladas por países muito endividados.
Entre as prioridades do Togo, referiu, contavam-se a manutenção da estabilidade macroeconómica, o aumento do crescimento económico e uma atenção especial à criação de capacidade e recuperação de infra-estruturas, designadamente estradas que atravessem todas as regiões do país, para que a agricultura possa prosperar.
O Ministro Ngoulou do Chade descreveu a história do país como “turbulenta” e “caracterizada por muitos conflitos”. Um acordo de paz com o Sudão, país vizinho, permitiu que as coisas ficassem “bastante melhor”.
“A estabilidade política e a paz foram restauradas…agora, estamos a tentar concentrar-nos no desenvolvimento” disse, avisando, contudo, que o conflito em curso na vizinha Líbia traz novos riscos de instabilidade ao Chade, que está a gastar os parcos recursos na repatriação de cerca de 400 000 cidadãos.
…financiamento inovador e integração regional
Os ministros reconheceram que, embora essencial, o financiamento na forma de créditos sem juros e de subvenções de fontes concessionais, tais como o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento, tende a ser excessivamente limitado para implementar efectivamente os projectos ambiciosos que o continente gostaria de prosseguir. Renovaram um apelo feito numa conferência recente de países africanos de língua francesa, reunidos no Chade para o G-20, no sentido de se explorar um financiamento inovador e, em unanimidade aplaudiram o financiamento que África está a receber de um doador não tradicional, como a China, designadamente para financiar infra-estruturas.
Reconheceram a importância da integração regional, referindo que tal podia mudar as regras do jogo em África. É uma das principais prioridades do Zimbabué, disse o Ministro Biti. “África tem uma população de mais de mil milhões…temos tudo o que a China tem em termos de população, podemos integrar para conseguir economias de escala”, afirmou.
O Ministro Ayassor do Togo referiu que o seu país iria tentar expandir a estrutura portuária no Lomé, com vista a responder à procura de Burkina-Faso, Mali e Níger, pois todos utilizam este porto.
Tirando partido da sua situação dentro da África do Sul e da sua participação na União Alfandegária da África Austral (SACU), o ministro Tahane do Lesoto afirmou que o seu país iria tentar vencer o desafio de um pequeno mercado interno, descobrindo nichos nos mercados das economias de maior dimensão da proximidade.
…e proporcionar educação, saúde, segurança alimentar e redes de segurança social
Todos os quatro ministros estavam de acordo com um dos pilares da nova estratégia do Banco Mundial para África, sublinhando a importância de se facultar redes de segurança para os pobres, perante choques de todos os tipos – macroeconómicos, fiscais, políticos, desastres naturais e provocados pela mão humana, relacionados com a saúde e o clima — para impedir que continuem a conspirar no sentido de manter em pobreza um enorme número de africanos.
O Ministro Biti destacou que, para além da construção de infra-estruturas, a prestação de serviços sociais era uma das grandes prioridades de desenvolvimento do Zimbabué, incluindo a melhoria e reabilitação do sistema de educação. O orçamento, explicou, concede recursos substanciais para programas sociais na educação, saúde e redes de segurança – que visam especificamente lares que tenham à frente viúvas ou crianças, concedendo subsídios de educação e empréstimos para estudantes pobres e promovendo outras iniciativas – para espalhar e distribuir riqueza.
O Ministro Tahane do Lesoto mencionou que uma parceria público-privada tinha tido um papel importante na reconstrução do principal hospital do Lesoto, através de um projecto inovador, apoiado pelo Banco Mundial, que considera que está a ajudar o seu país a iniciar uma transformação eficaz na saúde, rápida e inovadora.
Segundo o Ministro Biti, não existe nenhuma razão para África não alcançar segurança alimentar. Enunciou as reformas da terra, a modernização da agricultura, valor acrescentado e comercialização dos produtos agrícolas como os principais requisitos para um futuro livre de fome.
A criação de capacidade era uma outra área onde os ministros reconheceram a necessidade de uma acção urgente, especialmente nos países a emergirem de conflitos ou de uma situação de fragilidade. “Tivemos a segunda maior taxa de literacia, a seguir à Tunísia; perdemos muito”, disse o Ministro Biti, acrescentando: “O futuro pode parecer pouco promissor no curto prazo, mas acredito que o Zimbabué está em curso ascendente, exactamente como o resto de África”.